Vieste para encher de alegria o coração de um homem. Foste tal qual jóia falsa que no início brilha muito, mas depois enferruja.
Uma linda menina
Márcio abriu a porta do escritório do agiota e teve um grande susto.
À frente de uma escrivaninha no fundo da sala, a nova secretária do Francisco disse-lhe com muita graça:
- Em que posso ajudar?
Márcio fez o possível para disfarçar toda a emoção que sentia diante do mais belo exemplar feminino que já tinha visto. Aos seus olhos, ela era exatamente o seu número. Márcio não era um rapaz namorador ou mulherengo, pelo contrário, nos seus vinte e sete anos de vida tinha tido pouca experiência com mulheres. Havia tido dois breves relacionamentos e, como todo jovem de sua época, aqui e ali algumas escapadas de moço solteiro. Era negra, um bom corpo, quadris largos e exalava pelos poros uma graça de mulher levada.
- Gostaria de falar com o Francisco. Ele está?, perguntou-lhe, ainda fazendo um esforço para não parecer um emocionado, pois, mesmo jovem, sabia que esse tipo de homem não agrada à maioria das mulheres. Apesar de pouca experiência com namoradas, ele, que fora criado em meio a três irmãs mais novas e, por ser já professor desde os dezoito anos, convivia diariamente com muitas mulheres, conhecia razoavelmente a natureza feminina.
- Precisou dar uma saidinha, mas logo estará de volta. Quer aguardar?, perguntou-lhe com mais graciosidade ainda, o que só ajudou a aumentar o seu interesse.
- Sim, respondeu-lhe… já pensando nos assuntos que entabularia para jogar a sua rede. Mal sabia ele que a menina já havia jogado a dela primeiro.
- Qual o seu nome?
- Letícia. Comecei a trabalhar com o Francisco há poucos dias.
Francisco era um agiota que fazia financiamentos tendo como garantia a linha telefônica fixa do interessado. Ele liberava a quantia desejada mediante a transferência da propriedade da linha para o seu nome e, uma vez paga a dívida, ela voltava novamente para o dono. Naquela época, final da década de oitenta do século passado, era preciso esperar anos, às vezes, para conseguir uma linha e seu valor de mercado era muitas vezes maior que um carro novo. Já havia feito esse financiamento várias vezes e adquirido confiança nele.
Márcio foi logo ao que lhe interessava.
- Você tem namorado?
- Não, respondeu-lhe, mostrando estar acostumada com esse tipo de pergunta.
- Achei você muito simpática. Que tal se a gente saísse pra nos conhecermos melhor, disse ele, sem deixar transparecer todo sentimento que tinha nascido em seu interior. Tinha sido paixão à primeira vista.
Trocaram números de telefone para se comunicarem depois. Logo a seguir, Francisco chegou e o assunto comercial objeto da visita foi tratado. Márcio, no entanto, não conseguia mais ter a mesma concentração, aquela menina havia mexido com as suas emoções e sentimentos. O moço era católico não praticante, mas tinha uma profunda conexão com Deus. Em sua adolescência, chegou mesmo a fazer o curso de catecismo na igreja do bairro em que morava e tinha atuado como “coroinha”. Fazia suas orações diariamente e nelas, vinha pedindo ao Criador que colocasse no seu caminho aquela que seria a mãe dos seus filhos, ansiava por uma companheira de vida, sonhava em andar de mãos dadas com ela por muitos e muitos anos e, simplesmente, ser feliz.
Ele não teve infância. Desde os sete anos de idade começou a trabalhar vendendo cocadas caseiras de porta em porta para ajudar sua mãe que aguardava sua chegada com o dinheiro para ir à venda do Sr. Mikio comprar o que pudesse para a comida da família. Seu pai, nesta época, estava desempregado e cabia a ele, na condição de filho mais velho, fazer o que estivesse ao seu alcance para que a família não passasse necessidade. A partir do momento que conheceu o valor do dinheiro, não se interessava mais pelas brincadeiras infantis, só queria trabalhar.
Depois disso, outras tantas atividades informais apareceriam no seu caminho. Vendedor de sorvetes, de “quebra-queixo”, engraxate, atendente de bar, vendedor de milho verde na “feira”. Sua mãe, Nair, mulher forte e guerreira, estava sempre ao seu lado, estimulando e orientando seu filho. Não podia trabalhar, pois tinha que cuidar de duas filhas pequenas e, à época, eram quase inexistentes as oportunidades de trabalho para mulher casada e com filhos pequenos.
Aos vinte e sete anos, quase formado na faculdade, falando com fluência dois idiomas estrangeiros além da sua língua materna, com experiência profissional e já com seu próprio negócio, sentia-se pronto para constituir a sua própria família. Faltava a sua cara metade, seria Letícia essa mulher? A ver...
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No Brasil chamamos de “coroinha” os adolescentes que fazem o curso de catecismo e que são chamados a ajudar na condução da missa.
No Brasil, chamamos de “quebra-queixo”, um doce típico muito apreciado no País feito com pedaços de coco e açúcar queimado.
No Brasil, “feira” é um mercado de rua que ocorre uma vez por semana em uma rua de cada bairro. Os comerciantes de frutas, verduras
e outros produtos de consumo montam suas barracas de madrugada e encerram seus trabalhos por volta das 14 horas desmontando as tendas e
deixando sujeira para o pessoal da limpeza urbana limpar.
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